TORITAMA e SANTA CRUZ DO CAPIBARIBE (PE) - Nem royalties, nem riqueza
natural e muito menos alguma versão cabocla do Vale do Silício nos EUA.
Foi de retalho em retalho, com fabriquetas no início só de fundo de
quintal e sem qualquer interferência do estado, que Toritama —
localizada a 167 quilômetros de Recife — construiu sua economia. A
cidade, que possui o menor território de Pernambuco (33 quilômetros
quadrados), não tem desemprego, importa trabalhadores, e seu crescimento
é para lá de chinês. Ao longo de quase uma década, o Produto Interno
Bruto (PIB) cresceu 101,2%, enquanto a população aumentou 63,1%. A
cidade é considerada “a capital do jeans” e consome 14% de toda a
produção brasileira do tecido.
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http://oglobo.globo.com/economia/jeans-turbina-economia-do-agreste-8432368#ixzz2TjzBrWm6
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O fenômeno, embora em números menores, se repete no chamado Polo das
Confecções, conjunto de dez municípios localizados no agreste do estado
que no mesmo período registrou crescimento de 56,1%, maior, portanto, do
que o de Pernambuco (44,3%), do Nordeste (47,9%) e o do próprio país
(36,2%). Isso é o que revela o Estudo Econômico do Arranjo Produtivo
Local (APL) de Confecções do Agreste Pernambucano, divulgado pelo
Sebrae.
O levantamento mostra que, só em 2011, a atividade gerou
faturamento de R$ 1,1 bilhão no Polo de Confecções, dinheiro bastante
para uma área que antes dependia da agricultura, enfrentava fome
provocada por secas constantes e que, ainda hoje, carece de água. Em
quase todo o polo, carros importados e motos convivem com caminhões-pipa
ou água carregada em lombo de jumento. A pesquisa foi efetuada nos dez
municípios mais conhecidos pela atividade, mas comerciantes e
fabricantes da área admitem que o polo está se expandindo por pelo menos
18 cidades.
Economia cresce mais do que população
O
estudo mostrou que em todos os municípios pesquisados o crescimento
econômico foi bem maior do que o populacional, e que o polo soma hoje
18.803 unidades produtivas, sendo 10.743 consideradas empresas enquanto
8.060 são unidades complementares, as chamadas “facções”, nome utilizado
para definir prestadoras de serviço, normalmente domésticas, que ganham
por produção. Ao todo, são 107.177 empregos gerados no APL, respondendo
por 19,8% da participação de ocupados em confecções.
Segundo o
Sebrae, nos últimos cinco anos, 72% das empresas não pediram dinheiro
emprestado a bancos, o mesmo ocorrendo com 9% dos empreendimentos
complementares. Mesmo assim, a cada ano, as dez cidades produzem 842,5
milhões de peças que escoam em sua maior parte para o Nordeste (74,9%).
Mas elas chegam a todo o país, inclusive ao Sudeste (12,8%), Norte
(6,9%), Centro-Oeste (3,4%) e Sul (2%).
Conhecida em meados do
século passado pela sua produção de artigos de couro, principalmente
sapatos, Toritama entrou em decadência a partir dos anos 80, com o
desenvolvimento de outros polos calçadistas na região. Mirou-se no
exemplo de Santa Cruz do Capibaribe, onde sua população ia em busca de
tecidos para transformar em confecções, e assim, sobreviver. O que mais
sobrava nas feiras eram os retalhos de jeans.
— Íamos a Santa Cruz
do Capibaribe, pois naquela época as confecções só se interessavam
pelas malhas. Toritama aproveitou esse vácuo e descobriu um novo nicho
no mercado — revela Edilson Tavares de Lima, empresário e presidente do
Núcleo Gestor da Cadeia Têxtil e Confecções do Agreste. Hoje, ele e os
irmãos administram fábrica de confecções, loja e lavanderia. A
indústria, a Zagnetron, produz mais de 25 mil peças por mês de jeans em
sua grande maioria.
Outra empresária que começou de forma tão
informal foi Maria de Fátima do Nascimento, proprietária da Yanomami.
Apesar de ter curso de administração e ter passado um ano trabalhando em
empresas, decidiu entrar no ramo de confecções. Formalizou a empresa,
criou a Samkara, que produz três mil peças por mês e escoa 40% da
produção para outros estados.
Vanessa Galdino da Silva, de 28
anos, é de uma família pernambucana que morava em São Paulo há 30 anos.
Há sete anos, a família inverteu o tradicional fluxo migratório e se
mudou para Caruaru, a 130 quilômetros da capital, e uma das dez cidades
integrantes do Polo de Confecções do Agreste. O chefe da família, porém,
não se adaptou e voltou. Já mãe preferiu ficar e montou uma confecção.
Azenatry
Leite de Souza, de 22 anos, morava com os pais no litoral sul de
Pernambuco, de onde saíram, também para Caruaru, onde ela estudou e hoje
é designer contratadas pela Zagnetron, de Toritama, junto com Vanessa.
Elas criam coleções para três marcas da empresa, com características
voltadas para consumidores de outros estados e da região.
Gilvaneide
Clementina de Lima, de 39 anos, morava no sertão da Paraíba, no
município de Água Branca, mas desistiu da lavoura, devido às secas. Ela
escolheu Santa Cruz do Capibaribe, onde começou limpando o chão da
Yanomami, e hoje ganha a vida como costureira na empresa. Gilvaneide
trouxe a irmã, Gaudência Maria da Silva, de 24 anos, que há seis anos
trabalha no mesmo local.
Fonte : globo.com